quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Satisfação

Precisava fazer umas fotos para um trabalho da faculdade. Na absoluta falta de idéias, me ocorreu interromper o jogo de bocha dos velhinhos. Me explico: ofereci um quadro negro e uma caneta aos senhores e senhoras que tomavam sol naquela tarde de uma quinta-feira e pedia "por favor, escreva no quadro qual idade você gostaria de ter agora". Com o número escrito tirava uma foto em sépia. Depois era só anotar os nomes e as verdadeiras idades.

Até aí era só um trabalho de faculdade. No finalzinho, apareceu uma criança e já que estava no embalo pedi permissão à mãe para fazer uma foto. Segui o mesmo roteiro e saquei a foto em sépia.

Quando cheguei em casa e comecei a trabalhar as imagens me dei conta de que ninguém estava satisfeito com a idade que tinha. Alguns deles queriam ter um ano a mais, outros desejavam apenas alguns meses a menos. O único que aceitou e que gostava do momento em que vivia era a criança. Entre o balanço e a piscina, ela não tinha tempo para pensar no que não é.

À propósito, me tascaram um seis no trabalho. Queriam alguma coisa com mais ação...

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Crise?

A Espanha está em crise. Os jornais só falam da crise. As pessoas acreditam na crise. Dizem que a crise vai chegar ao Brasil em breve. Por enquanto, a crise que é elitista está visitando os países de primeiro mundo: começou no EUA, chegou na Europa, talvez coma um sushi no Japão. Se der, passa um tempo numa praia da Bahia ou Rio.

A conclusão: crise é igual a virose. Se der merda, coloque a palavra crise no meio, ninguém sabe o que é, ninguem sabe de onde veio, mas a palavra representa um fenômeno incontrolável, rebelde e imprevisível.

Falando nisso, os homens podem usar bem a palavra crise. Quando namoradas, mulheres, companheiras etc lançarem aquela frase "Estou de TPM", de bate-pronto respondemos "E eu estou em crise". Elas podem chorar na TPM e nós podemos jogar videogame e gritar algum palavrão sem que ninguém fique magoado.


Falando nisso, estou em crise.

Ladrão ou pedinte?

A frase da semana, falada por um jovem catalão: "É melhor ser ladrão que pedir dinheiro!". A frase sai meio em murmúrio quando passamos por um sul-americano que pedia dinheiro - de joelhos - em frente a Sagrada Família.

A volta é simples: pq?


E a resposta, "flipante": "pq pelo menos os ladrões têm que suar e se preocupar em não serem pegos".


À propósito, os pedintes se multiplicam em Barcelona. Com a atual crise, o setor de construção parou e os milhares de estrangeiros que dependem dele foram para as ruas ou estão voltando pra casa.
Na mesma proporção aumentam as críticas dos catalães.

Outro dia, um senhorzinho de bengala expulsou aos berros um peruano que - também ajoelhado - pedia dinheiro em frente a sua carniceria. "Tá bem que não há emprego, mas sim que há trabalho" reclamou o velho catalão.


O mundo gira e os problemas são os mesmos...

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Bicicletas oficiais

BCN. O governo de Barcelona aposta, há tempos, nas bicicletas como solução de transporte. Além das ciclovias, presentes em toda a cidade, existe um serviço de aluguel de bicis - como dizem aqui.

O serviço funciona 24h, todos os dias do ano. Atualmente, são 321 estaçoes espalhadas em pontos estratégicos da cidade (perto de metros, trens, pontos turísticos etc), com mais de três mil bicicletas à disposição. Até maio de 2008, já foram cadastradas mais de 130 mil pessoas.

O cadastro para poder utilizar as bicicletas "públicas" é feito diretamente no site da empresa responsável. O cartão que permitirá pegar as bicicletas chega em casa, junto com um manual de deveres e direitos.

Com o cartão nas mãos, o sistema é simples: o cidadão vai até uma estação de bicicletas, passa o cartão, e sai pedalando. Quando chegar ao destino ou encher o saco, pode deixar a bicicleta em qualquer lugar (é claro, desde que haja outra estação).

As bicicletas públicas também fazem parte do cotidiano de outras cidades como: Bruxelas, Viena, Lyon, París, Copenhague e Estocolmo.

Será que essa iniciativa funcionaria no Rio? Se fosse adotada, quanto tempo durariam as bicicletas?

Para maiores detalhes:
http://www.bicing.com

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Qual cidade? (parte 1)

Com as dicas, tente adivinhar de qual cidade estamos falando:

1) Trânsito caótico. Cada motorista tem um código próprio de trânsito. Estacionar nao é um problema, já que é possível parar o carro em qualquer lugar e em qualquer posicao, independente de como estejam os outros carros. Nao há sinais e os pedestres tem que suplicar ou tentar suícidio para atravessar as ruas. Quando as placas dizem "virar a direita", você pode virar a esquerda, o contrário é verdadeiro. Entrar na contra-mao nao é necessariamente um problema.

2) A comida é ótima, mas pesada. Come-se mais do que se pode sempre. Se estiver na casa de "minhocas" entao, nao vao deixar que saia da mesa enquanto nao passar mal. O servico nos restaurantes é ruim e a janta é servida sempre até, no máximo, nove da noite.

3) A história e os monumentos sao impressionantes. Mas como sempre, pessimamente conservados. Nao importa o valor histórico, pixacoes e lixo estao sempre presentes. Pouca informacao e placas dificultam a vida dos visitantes. Nao é surpresa que os forasteiros saibam mais sobre a história local que os próprios moradores.

4) A política é temperamental. Governada por socialistas há alguns mandatos, a c
idade agora será governada pela direita neo-fascista. Em tempos de campanha, as ruas ficam cheias de cartazes e lixo. Nao há um lugar sequer livre da sujeira sazonal. Os cidadao nao sabem quem sao os candidatos, muito menos as idéias que representam.

5) Se existisse uma organizaçao internacional séria de Meio Ambiente, esta cidade teria que pagar inúmeras multas. Principalmente quando estamos falando de desperdício de água. Em cada esquina há uma torneira que nao pode ser fechada. A água corre livremente para ligar nenhum.

6) Camelôs. As ruas sao dos vendedores ambulantes. Colocam suas barracas o
nde querem e vendem de tudo: bolsas falsificadas, óculos, roupa, CD´s e DVD´s. De vez em quando, a polícia aparece e todos batem retirada. A calmaria, no entanto, dura poucos minutos. É só os guardas virarem as costas que a rua volta a ser um grande mercado (ilegal) a céu aberto.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Trens com fumaça

BCN. O serviço de trens da Catalunha está em crise. A briga, é claro, é entre a Generalitat (espécie de prefeitura da província) e o governo central - Barcelona contra Madrid. Enquanto políticos discutem quem vai investir e reorganizar as linhas, os usuários ficam, literalmente, na espera.

Todos os dias, sem exceção, há atrasos nas principais vias férreas da cidade. Quando um trem chega na hora, só faltam as palmas da galera. Por outro lado, discutir com os funcionários e organizar mini-revoluções nas estações já virou prática cotidiana.


Outro dia, depois de meia hora de atraso - com sucessivas mudanças no painel que avisa a hora de chegada do trem - avistamos o vagão ao longe que chegava na plataforma. Numa correria e empurra-empurra digna da linha 2 do metrô do Rio, o pessoal se ajeitou nos vagões. Em vão. Um princípio de incêndio fez com que todos os passageiros fossem retirados e mais, não havia trem reserva.


Uma viagem que normalmente se faz em 40 minutos durou duas horas e meia. E ainda falam que os países em desenvolvimento querem ser como eles. Meus amigos, nós já somos e mais um pouco, ficamos melhores...

Espanha: mentira oficial

BCN. Sinto informar-lhes mas a Espanha não existe. O rei, o presidente, o congresso fazem parte de uma gigantesca apresentação teatral e de péssimo roteiro. Todos esses personagens estão ligados à Madrid e é nesta parte do território "espanhol" que encontramos a chamada "Espanha profunda", em outras palavras a Espanha dos touros, das castanholas, das mulheres suadas vestidas de vermelho etc.

Todo o resto não se considera espanhol. Catalunha, País Basco, Galícia; todos eles têm idiomas próprios, culturas distintas e problemas seculares com a capital. O rancor cresce quando datas comemorativas se aproximam no calendário ou quando o governo central tenta mudar alguma tradição local.

A briga agora é quanto ao traçado do trem de alta velocidade que ligará Barcelona à Paris. No plano original, a linha passa por debaixo da Sagrada Família - símbolo de Barcelona. Moradores, associações e políticos alegam que a obra pode causar avarias na igreja de Gaudí. Na verdade, o risco é pequeno, o que importa é a possibilidade de discutir e, é claro, de ganhar a queda de braço.

A foto ao lado foi tirada cerca da Sagrada Família. O cartaz está dobrado, mas a frase é: "Catalunha não é Espanha".

Bom, no Brasil, temos terremotos, maremotos, tiroteio e dengue, mas ainda não temos movimentos separatistas, pelo menos isso.